FORMAS ALTERNATIVAS
DA MODERNIDADE
FRANÇOIS COINTERAUX
PRIMEIRO GRANDE PIONEIRO DA ARQUITETURA MODERNA COM TERRA
François Cointeraux (1740–1830) arquiteto francês.
Em 1789, após os avanços radicais do Iluminismo, a revolução francesa introduziu um novo modelo de sociedade, consagrado no lema "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" e na Declaração dos Direitos Humanos. Essa mudança radical na vida política e social foi seguida por novas mudanças iniciadas pelos fisiocratas, cuja estratégia social e econômica promoveu a "grande obra da agricultura" e o "governo da natureza". Foi nessa tormenta, no auge do período revolucionário, que Cointeraux começou a escrever e a trabalhar. A sua ambição era modernizar a técnica milenar de construção de taipa, utilizada nas aldeias da sua região natal, entre Lyon e Grenoble: rebatizou-a como Nouveau Pisé, ou Nova Taipa de Pilão. Era uma técnica rápida e barata que atendia às necessidades da democratização rural, bem como às expectativas de uma nova forma de sociedade, particularmente a classe emergente de trabalhadores agrícolas que trabalhavam nas terras expropriadas dos aristocratas após a revolução.
O ativismo de François Cointeraux também ficou evidente em seus métodos de comunicação. Autointitulado como "professor de arquitetura rural", fundou escolas em Paris, Lyon e Grenoble para propagar seus ensinamentos. De 1790 em diante, publicou cerca de sessenta livretos e panfletos, alguns dos quais foram traduzidos em até oito línguas, um feito notável para um humilde trabalhador rural com grandes ambições de reformar a sociedade.
François Cointeraux surge, sobretudo, como o primeiro promotor moderno da autoconstrução de moradias. Ele acreditava, apaixonadamente, que as construções com terra iriam suprir as necessidades de todas as classes sociais.
“A arquitetura sempre foi discutida isoladamente. A agricultura sempre foi considerada separadamente. Isso é um erro: essas duas artes só podem ser promovidas pela fusão de seus princípios em único todo. O resultado final é uma nova ciência, que chamo de agritetura.” (construção do território)
Os trabalhos de Cointeraux foram reconhecidos e admirados do início do século 19 em diante. Em 1807, o imperador Napoleão I se inspirou neles para a construção, em taipa, de uma nova cidade militar destinada a acolher 15.000 pessoas: Napoléonville, no oeste da França. No final do século 18, sua causa conquistou uma série de influentes arquitetos europeus, incluindo David Gilly, arquiteto da corte do rei Frederick II da Alemanha. Em 1973, Gilly iniciou, em Berlin, a Bauschule, uma escola de construção inspirada nas escolas francesas fundadas por Cointeraux. Cinco anos depois, próximo a Berlin, Gilly construiu, com taipa de pilão, o palácio Kleinmachnow. Gilly também patrocinou a tradução das obras de Cointeraux. Estas, por sua vez, impressionaram o empresário Wilhelm Jacob Wimpf, que em 1826 ergueu um bloco de apartamentos de classe média em Weilburg que - com sete andares - era o edifício de taipa mais alto da Alemanha e rivalizava com seus equivalentes franceses em Lyon.
Na Rússia, Nikolai L’vov, um arquiteto favorecido pelo Czar Paulo I, foi um leitor devotado de Cointeraux, cuja obra traduziu para o russo em 1796. L’vov colocou as ideias do francês em prática em suas primeiras obras residenciais, incluindo sua própria casa em Torjok. Depois de L'Vov ter enaltecido no tribunal as construções de taipa de pilão, o czar o encarregou de construir alguns quartéis, seguidos pelo prestigioso Palácio do Priorado em Gatchina (recentemente restaurado). Espantado com os resultados, o Czar ajudou L’Vov a fundar duas escolas que treinariam centenas de russos para trabalharem com taipa de pilão de acordo com os princípios de Cointeraux.
Henry Holland, espalhou as idéias de Cointeraux na Inglaterra e na América do Norte. Assim como Klaus Seidelin fez na Dinamarca. Em 1870 mais de quatro mil casas dinamarquesas foram construídas com terra. No mesmo ano, o banqueiro Fritz Frolich encomendou a construção de terra do jardim da cidade de Frolichbyen, em Oslo, Noruega. Um entusiasmo similar se mostrou evidente nas construções de casas de classe média suecas, em Estocolmo, na mesma época. Na Itália, os trabalhos de Cointeraux foram traduzidos antes de 1793, graças aos esforços de Giuseppe Del Rosso.
Em 1792, após visitar uma das construções de taipa de Cointeraux próxima a Lyon, Thomas Jefferson escreveu para o presidente George Washington sobre a técnica construtiva pisé de terre, que viu na França, e as potenciais vantagens desta técnica para as novas aldeias que seriam construídas pelos pioneiros que abririam os caminhos para o oeste. Em 1806, S.W. Johnson publicou seu tratado: Economia Rural – um tratado sobre a construção com taipa, que plagiou livremente os trabalhos de Cointeraux, que sem querer, acabou contribuindo para o sucesso do livro.
Cointeraux também teve seguidores na Nova Zelândia, aonde o arquiteto francês Louis Perret construiu a casa Pompallier, na cidade de Russell em 1842 (hoje, reconhecida como um monumento nacional). Enquanto isso, a técnica de taipa foi disseminada na Austrália em 1817, através do Dicionário do Fazendeiro, escrito por Abraham Rees, e posteriormente, em 1823, os escritos de Cointeraux começaram a ser publicados em série na Gazeta de Sydney.


