FORMAS ALTERNATIVAS
DA MODERNIDADE
HASSAN FATHY
SEGUNDO GRANDE PIONEIRO DA ARQUITETURA MODERNA COM TERRA
Hassan Fathy (1900–1989) arquiteto egípcio
Fathy vem de uma família rica de donos de terras, e teve uma educação cosmopolita, e musical, típica da classe média árabe. Estudou arquitetura na escola politécnica do Cairo, que oferecia um treinamento delineado pelas práticas contemporâneas europeias.
Quando finalizou o curso, estava imerso nos ideais do modernismo, que dominava o oeste. No entanto, a carreira de Fathy, assim como a de Cointeraux, foi distinguida pelo apoio fervoroso de uma forma bem específica de modernização: construir com terra.
Cointeraux fundou escolas rurais que treinaram construtores na nova técnica de taipa, enquanto Fathy fundou um instituto tecnológico dedicado ao assunto. Além disso, ambos espalharam suas idéias através de seus escritos. Fathy publicou dois livros, hoje considerados clássicos: Construindo com o povo, a história de um vilarejo no Egito: Gourna / Energia natural e arquitetura vernacular. Fathy, assim como Cointeraux, admirava a harmonia e a inteligência das tradicionais casas rurais, que inspiraram sua tentativa em racionalizar técnicas construtivas ancestrais.
Os momentos finais das longas vidas de ambos arquitetos foram marcados por honras concedidas à excepcional criatividade dos mesmos. Certa vez, em um de seus discursos, Fathy focou em uma questão que o preocupava em particular:
“Como sairemos do atual conceito do arquiteto-construtor para a prática autossuficiente do autoconstrutor? Um único homem não é capaz construir uma casa, mas dez homens conseguem juntar forças facilmente para construir dez casas, até centenas. Nós devemos adaptar técnicas construtivas para que se encaixem nas restrições e demandas econômicas dos necessitados. ”
Cointeraux e Fathy eram entusiastas da autoconstrução e consideravam a terra o material ideal para viabilizar a autossuficiência que os construtores tanto precisavam e mereciam. Ambos arquitetos, queriam achar soluções práticas que garantissem a todos o direito à habitação rural.
Em 1922, o Egito deixou de ser um protetorado britânico e se tornou um reino nominalmente independente, embora os britânicos mantivessem uma forte presença militar. Essa dependência subjacente levou à fundação da Irmandade Muçulmana, em 1928, cujo objetivo declarado era "a luta não violenta contra o controle ocidental e a imitação cega do modelo europeu" nos países islâmicos. Fathy estava na casa dos vinte anos quando essas forças culturais começaram a se afirmar e ele próprio adotou uma postura militante que enfrentaria oposição veemente e até agressão de seus detratores. No entanto, Fathy tinha uma habilidade rara de reunir duas posições aparentemente irreconciliáveis.
Na década de 1940, seus projetos comunitários inovaram ao mesmo tempo em que inspiravam uma forma de transformação social e cultural voltada para o futuro a partir das tradições históricas e folclóricas de seu país. Sua doutrina estava de acordo com as declarações feitas na reunião mais importante dos líderes políticos do então chamado Terceiro Mundo do século 20: a Conferência de Bandung. A primeira reunião de cúpula dos países frequentemente apelidados pelo Ocidente de "em desenvolvimento" ocorreu na Indonésia em 1955, e envolveu vinte e nove países da Ásia e da África, incluindo o Egito. Essas jovens nações se esforçavam para afirmar sua identidade diante de duas grandes forças geopolíticas - o capitalismo e o comunismo - das quais queriam se separar. Esses dissidentes buscaram uma 'terceira via' como alternativa a esses dois modelos dominantes, daí o nome de 'Terceiro Mundo'. Os participantes da cúpula seguiram a liderança da Índia, valendo-se da espiritualidade e da estratégia de Gandhi, que minou o Império Britânico e conduziu seu país à independência em 1947, antes de seu assassinato nos anos seguintes. Um dos principais princípios de Gandhi era a solidariedade coletiva:
"Para lutar contra as bases da economia colonial ou neocolonial e seus efeitos de preservação, devemos boicotar os produtos industriais importados de países europeus e valorizar todos os nossos próprios recursos naturais locais e os de nossos artesãos, assim poderemos prejudicar os negócios das potências industriais, favorecendo a produção autônoma em todos os campos ”.
No Egito, assim como em outros lugares, essa visão do futuro envolvia uma reavaliação da cultura vernacular e uma vontade de depender o menos possível de modelos estrangeiros e das importações europeias. Embora o cimento e o aço, componentes do concreto armado, tenham sido frequentemente vistos no Egito como sinais de progresso, agora eles eram vistos como símbolos de forte dependência tecnológica e econômica. Este impulso à autonomia teve repercussões na prática da arquitetura e incentivou a utilização de materiais de construção disponíveis ou produzidos localmente. Fathy, portanto, começou a explorar o uso da terra crua extraída no local. Sua abordagem pioneira respondeu a duas demandas políticas diferentes, mas às vezes convergentes: a primeira formulada em 1928 após uma onda de protesto contra a ordem estabelecida, e a segunda demanda, mais recente, pela aplicação prática dos princípios da autossuficiência. Embora Fathy tenha começado sua carreira como arquiteto na década de 1930 criando edifícios de concreto armado no estilo do formalismo neo-ocidental, na década seguinte, ele defendeu a redescoberta da terra como material de construção, tornando-a o coração de sua filosofia. Fathy adotou as técnicas ancestrais de construção com adobe, o qual ainda era usado para construir paredes, cúpulas e abóbadas, incluindo a famosa 'abóbada núbia', que ele tanto admirava. Ele atualizou esses métodos sofisticados para projetar casas, mesquitas, teatros, escolas, mercados e edifícios comunitários. Instalações comunais desse tipo foram projetadas minuciosamente por Fathy para duas novas aldeias: uma em New Gourna, perto de Luxor, na Núbia, e a outra em New Baris, no noroeste do Egito.
O jornal francês Le Monde descreveu o estilo de Fathy, após sua morte em 1980, como 'modernidade extraída das fontes da tradição', e disse:
"Ao rejeitar os cânones ocidentais, que ele considerava inadequados para países em desenvolvimento, o arquiteto egípcio construiu um corpo sofisticado de trabalho inspirado em modelos vernaculares. "


